A aproximação política entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, voltou ao centro do debate econômico brasileiro. Uma proposta para reduzir a taxa básica de juros, atualmente em 13,75%, para aproximadamente 7,5% ao ano em 12 meses provocou críticas de economistas, analistas financeiros e veículos de comunicação, diante dos possíveis efeitos sobre a inflação, o dólar e a autonomia do Banco Central.
O debate ganhou força após notícias sobre a possibilidade de um encontro entre Lula e Lara Resende para discutir mudanças na condução econômica do país.
A proposta prevê a criação de um novo conselho responsável por coordenar as políticas fiscal e monetária, além da utilização de reservas internacionais para conter eventuais pressões cambiais.
Embora o ministro da Fazenda, Dario Durigan, tenha negado que o governo esteja avaliando a adoção do plano, as manifestações favoráveis de integrantes do PT ampliaram a repercussão.
A preocupação central dos críticos é que uma redução dos juros determinada por novas regras políticas, sem a recuperação da confiança nas contas públicas, possa provocar justamente o efeito contrário ao prometido: inflação mais alta e perda de poder de compra.
A proximidade entre Lula e Lara Resende não começou agora
A ligação política entre Lula e o economista possui antecedentes documentados.
Em 2022, Lara Resende declarou apoio à candidatura presidencial do petista e integrou a equipe técnica da transição de governo na área econômica.
Conforme registrou a Folha de S.Paulo, o economista participou das discussões sobre o novo governo, após convite articulado pelo vice-presidente eleito Geraldo Alckmin.
A participação representou uma aproximação relevante, considerando que Lara Resende havia ocupado cargos de destaque durante governos anteriores, incluindo a presidência do BNDES na administração de Fernando Henrique Cardoso.
Segundo reportagem da Revista Oeste, publicada em 2 de novembro, o economista também chegou a receber um convite para assumir o Ministério do Planejamento, mas não aceitou.
A aproximação voltou a ganhar destaque após a reeleição de Lula, diante das discussões sobre a política econômica de seu novo mandato.
Aliados de Lula demonstram apoio à proposta
A repercussão não se deve apenas à trajetória do economista.
Em 1º de novembro, a deputada federal Gleisi Hoffmann, ex-presidente do PT e ex-ministra das Relações Institucionais, elogiou publicamente o artigo de Lara Resende.
Segundo reportagem do Estadão Conteúdo, publicada pelo UOL, Gleisi considerou o texto fundamental para contestar as críticas à política fiscal brasileira.
Outro apoio veio de José Sérgio Gabrielli, responsável pela coordenação do programa de governo de Lula na campanha de reeleição.
Conforme a CNN Brasil, Gabrielli divulgou um documento no qual defende maior coordenação entre as decisões fiscais e monetárias e demonstra interesse na criação do conselho sugerido por Lara Resende.
As manifestações indicam receptividade à proposta dentro de setores próximos ao presidente.
Entretanto, o apoio de lideranças políticas não significa que o governo tenha aprovado ou decidido implementar o plano.
A distinção ganhou importância depois que circularam informações sobre uma possível reunião entre Lula e o economista.
Ministro da Fazenda nega adoção da proposta
Em entrevista à Folha de S.Paulo, o ministro Dario Durigan afirmou que não existe reunião agendada entre Lula e Lara Resende.
O ministro também negou que o governo esteja discutindo o estabelecimento de limites administrativos para a taxa de juros.
Segundo a reportagem, integrantes da equipe econômica reconheceram tentativas de promover encontros com especialistas que apresentem diferentes interpretações sobre o problema fiscal brasileiro.
Não havia, porém, confirmação de uma reunião específica com Lara Resende.
A negativa oficial esclarece a situação atual, mas não elimina o interesse político despertado pela proposta.
O que André Lara Resende pretende mudar na economia?
No artigo “Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos”, publicado em 25 de setembro, o economista defende uma mudança profunda na condução dos juros e das contas públicas.
Lara Resende argumenta que a principal causa do crescimento da dívida brasileira está no custo dos juros pagos pelo governo, e não necessariamente no volume das despesas públicas.
Para enfrentar esse problema, propõe:
Redução gradual da Selic: de 13,75% para aproximadamente 7,5% ao ano, em um período de 12 meses.
Criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional: órgão responsável por coordenar metas econômicas e estabelecer parâmetros para a política de juros.
Nova faixa de referência: depois da transição, a Selic passaria a operar, como objetivo, entre aproximadamente 3% e 5,5% ao ano, com regras para situações excepcionais.
Utilização das reservas internacionais: possibilidade de intervenções no mercado de câmbio para reduzir oscilações provocadas pela queda dos juros.
O economista estima que a mudança poderia gerar uma economia fiscal equivalente a quase 4% do Produto Interno Bruto (PIB) ao ano.
Trata-se, entretanto, de uma projeção do autor, sujeita a hipóteses econômicas e aos efeitos da implementação.
O ponto mais controverso é a alteração da capacidade de decisão do Banco Central, que atualmente define a taxa básica de juros por meio do Comitê de Política Monetária (Copom).
Revista Oeste destaca riscos de interferência política
A Revista Oeste apresentou uma avaliação crítica da proposta, relacionando o projeto ao risco de maior interferência política nas decisões econômicas.
A reportagem destacou que a tentativa de reduzir os juros sem solucionar os desequilíbrios fiscais poderia comprometer a confiança na economia brasileira.
Entre os efeitos apontados estão a possibilidade de desvalorização do real, elevação da inflação e dificuldades para o Banco Central reagir a mudanças inesperadas.
O questionamento é relevante porque a autonomia da autoridade monetária busca proteger as decisões sobre juros de pressões políticas imediatas.
Uma redução sustentável da Selic pode favorecer o consumo e os investimentos. Entretanto, uma queda que não seja acompanhada pela confiança na estabilidade econômica pode provocar aumento dos juros cobrados em empréstimos de longo prazo.
Nessas condições, empresas e famílias poderiam continuar enfrentando crédito caro, mesmo com a taxa básica oficialmente menor.
Gazeta do Povo amplia críticas ao plano
A repercussão negativa também ganhou destaque na Gazeta do Povo, em artigo publicado nesta quarta-feira (4) pelo jornalista Guilherme Fiuza.
O colunista questionou a proposta de estabelecer limites para os juros e comparou a iniciativa com os princípios de estabilidade monetária associados ao Plano Real.
Fiuza argumenta que juros menores deveriam resultar de condições econômicas favoráveis, e não de uma determinação que limite previamente a atuação do Banco Central.
Em reportagem publicada na terça-feira (3), a Gazeta do Povo também destacou a mudança de posicionamento econômico de Lara Resende ao longo dos anos e sua atual aproximação com o campo político de Lula.
A crítica central apresentada pelo veículo é que o governo precisa enfrentar as causas da desconfiança econômica antes de tentar determinar os resultados da política monetária.
O Antagonista alerta para risco de inflação
O debate também foi abordado pelo programa Papo Antagonista, com os jornalistas Duda Teixeira e Carlos Graieb.
Os comentaristas questionaram a possibilidade de reduzir os juros sem um ajuste fiscal consistente e citaram a experiência da Turquia como exemplo dos riscos associados à interferência política na política monetária.
O país enfrentou forte inflação e desvalorização de sua moeda durante um período de decisões que mantiveram os juros abaixo do nível defendido por grande parte dos analistas.
A comparação não significa que o Brasil necessariamente enfrentaria o mesmo cenário, mas demonstra a preocupação dos críticos com o controle da inflação.
Economistas também criticam a utilização das reservas internacionais
As reações contrárias à proposta ultrapassaram os veículos de opinião política.
Em reportagem do Seu Dinheiro, Felipe Miranda, ex-diretor de investimentos da Empiricus, classificou a proposta como um “tiro no pé”.
Ele argumentou que a tentativa de reduzir os juros poderia provocar consequências contrárias aos objetivos inicialmente anunciados.
A economista Ana Paula Vescovi, ex-secretária do Tesouro Nacional, também manifestou preocupação com a proposta de utilizar reservas internacionais para conter possíveis pressões sobre o dólar.
Vescovi advertiu que uma coisa é possuir reservas para enfrentar turbulências temporárias; outra é garantir que esses recursos seriam suficientes para sustentar intervenções prolongadas.
As reservas internacionais funcionam como uma proteção financeira do país diante de crises e dificuldades externas.
Se o dólar subisse persistentemente após uma redução dos juros, o Banco Central poderia precisar vender reservas repetidamente, diminuindo um importante instrumento de segurança econômica.
E a reação da população?
A proposta também ganhou espaço nas redes sociais, especialmente por meio de publicações e vídeos de economistas, analistas financeiros e comentaristas políticos.
A crítica de Felipe Miranda é um exemplo verificável dessa repercussão pública.
Entretanto, não foi identificado um levantamento representativo que permita afirmar que a maioria dos brasileiros seja favorável ou contrária ao plano de Lara Resende.
A repercussão negativa documentada concentra-se, até esta apuração, em análises de especialistas, manifestações públicas e coberturas jornalísticas.
Essa distinção é importante porque o tema envolve consequências que poderão atingir toda a população, independentemente das opiniões expressas nas redes.
Lara Resende contesta as críticas
O economista rejeitou a interpretação de que sua proposta represente uma simples imposição de juros.
Em entrevista ao colunista José Paulo Kupfer, do UOL, publicada em 3 de novembro, Lara Resende afirmou que considera incorreto classificar seu projeto como tabelamento.
Segundo ele, a proposta pretende estabelecer objetivos econômicos de médio prazo, com coordenação entre a política fiscal e a monetária.
O economista sustenta que juros excessivamente elevados ampliam a dívida pública e limitam a capacidade de investimento do país.
Seus críticos reconhecem a necessidade de reduzir o custo do crédito, mas questionam o mecanismo escolhido e os riscos de limitar a atuação do Banco Central.
Como a proposta poderia afetar o bolso dos brasileiros?
O debate envolve consequências diretas para consumidores, trabalhadores, empresas e investidores.
Juros menores podem facilitar empréstimos, financiamentos e investimentos produtivos.
Por outro lado, caso a redução provoque uma desvalorização acentuada do real, produtos importados, combustíveis, medicamentos e insumos utilizados na produção de alimentos poderão ficar mais caros.
Se esses aumentos forem repassados aos preços finais, o benefício de juros menores poderá ser reduzido pela perda do poder de compra.
Além disso, a incerteza econômica pode levar instituições financeiras a exigir taxas maiores em financiamentos de longo prazo.
Portanto, a preocupação não está apenas no mercado financeiro. Uma decisão equivocada sobre juros pode atingir diretamente o orçamento das famílias brasileiras.
Quais respostas ainda precisam ser apresentadas?
Antes de qualquer decisão sobre uma mudança dessa dimensão, três questões merecem esclarecimento:
Controle da inflação: como o Banco Central reagiria a uma alta inesperada dos preços caso estivesse sujeito a novos limites para a Selic?
Uso das reservas internacionais: quais seriam as condições e os limites para utilizar recursos destinados à proteção do país diante de crises?
Responsabilidade fiscal: como o governo garantiria a sustentabilidade da dívida se a redução dos juros não produzisse a economia prevista por Lara Resende?
Até a tarde desta quarta-feira (4), a Selic permanecia em 13,75%, e o Copom tinha uma nova decisão prevista para a noite.
A aproximação histórica entre Lula e Lara Resende, somada às manifestações favoráveis de integrantes do PT, amplia a importância dessas respostas, mesmo sem uma decisão oficial de adotar a proposta.
Se o objetivo é reduzir o custo da dívida e estimular a economia, seria prudente alterar os limites de atuação do Banco Central e recorrer às reservas internacionais antes de demonstrar que a inflação e as contas públicas permanecerão sob controle?
Fontes: Folha · Revista Oeste · Estadão/UOL · CNN · Lara Resende · Gazeta do Povo · O Antagonista · Seu Dinheiro · UOL





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