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Brasil

Registros de pessoas em situação de rua crescem 86,9% entre janeiro de 2023 e junho de 2026

CadÚnico aponta a inclusão de 182,4 mil pessoas no indicador, com avanço puxado pelas regiões Norte

Redação Pedra Azul News

23/09/2026 - 00:00:00 | Atualizada em 23/09/2026 - 10:15:14

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O volume de brasileiros cadastrados como pessoas em situação de rua no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) manteve trajetória de crescimento expressivo no comparativo entre o início do atual ciclo governamental e meados de 2026. Levantamentos oficiais do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS) indicam que o contingente nacional passou de 210,0 mil registros em janeiro de 2023 para 392,4 mil em junho de 2026.

A variação compreendida no intervalo de 42 meses representa uma expansão de 86,9%, com a adição líquida de 182,4 mil pessoas nessa condição sociodemográfica. O ritmo de novas inclusões no sistema atingiu uma média de 4,34 mil registros por mês entre janeiro de 2023 e junho de 2026, índice que supera o dobro do patamar médio mensal de 2,1 mil cadastros apurado ao longo do quadriênio de 2019 a 2022.

O que leva alguém às ruas e por que os registros cresceram tanto?

Pesquisas sociodemográficas do Observatório POLOS de Cidadania da UFMG e relatórios do Ministério do Desenvolvimento Social detalham a sobreposição de fatores sociais, econômicos e institucionais que impelem indivíduos à extrema vulnerabilidade urbana:

Conflitos Familiares e Rompimento de Vínculos: O colapso das redes de apoio familiar e comunitário lidera as causas primárias de ida para as ruas, frequentemente motivado por violência doméstica, rejeição familiar relacionada a questões de gênero ou orientação sexual, e desentendimentos graves.

Perda de Trabalho, Renda e Moradia: O desemprego prolongado, o endividamento e a incapacidade de arcar com custos de aluguel nas grandes metrópoles atuam como gatilhos econômicos diretos. A informalidade e a perda súbita do teto empurram famílias inteiras para abrigos temporários ou para o espaço público.

Dependência Química e Saúde Mental: A ausência ou insuficiência de redes públicas estruturadas de atenção psicossocial (como os CAPS) para o tratamento do uso abusivo de álcool e outras drogas, combinada à falta de suporte para transtornos mentais severos, agrava o isolamento e dificulta a permanência em moradias regulares.

Mecanismos de Busca Ativa e Inclusão no Bolsa Família: Pelo ângulo institucional, o governo federal justifica que o salto expressivo nos números se deve, em grande medida, à intensificação das equipes de busca ativa municipal e às portarias que priorizaram a inclusão direta desse contingente no Bolsa Família, retirando da invisibilidade estatística pessoas que já viviam nas ruas sem cadastro prévio.

Como esse avanço se distribui pelas regiões do Brasil?

A análise detalhada dos microdados do CadÚnico e dos levantamentos do Observatório POLOS da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) evidencia a distribuição regional desse avanço no país:

Região Norte: Apresentou a maior taxa de crescimento percentual do Brasil no período de 42 meses. O avanço foi impulsionado por explosões estatísticas em Roraima — onde os cadastros saltaram de 1,46 mil para mais de 10,1 mil inscritos (alta superior a 590%) por conta da pressão migratória nas fronteiras — e em Rondônia, que registrou uma expansão acumulada de aproximadamente 450%.

Região Sudeste: Registrou um avanço de 85% e manteve a maior concentração absoluta de pessoas em situação de rua do país, abrigando mais de metade do contingente nacional. O estado de São Paulo lidera o volume absoluto com uma alta acumulada de 88% no indicador, concentrada prioritariamente na Região Metropolitana da capital.

Região Sul: Teve o terceiro maior crescimento proporcional do país, com alta de 83% nos registros. As maiores altas concentraram-se nas capitais Porto Alegre e Curitiba, além de municípios de grande porte do interior e litoral.

Região Centro-Oeste: Apresentou um crescimento de 79% no indicador de rua, impulsionado pela expansão de cadastramentos no Distrito Federal e no entorno de Goiânia.

Região Nordeste: Embora tenha registrado a menor taxa de crescimento proporcional em relação às demais regiões no período, manteve volume absoluto expressivo de cadastrados em metrópoles como Salvador, Fortaleza e Recife.

Quem são essas pessoas e como as políticas públicas têm reagido?

O levantamento do Observatório POLOS de Cidadania da UFMG, que catalogou 388.855 pessoas no indicador em maio de 2026, aponta que aproximadamente 70% dos cadastrados em situação de rua no Brasil pertencem à população negra (pretos e pardos), com forte concentração nas capitais e grandes centros urbanos.

Enquanto o MDS reforça que o aumento decorre do resgate da cidadania por meio da atualização cadastral e do acesso a benefícios assistenciais, analistas sociais e parlamentares de oposição contestam a tese de que o salto seja exclusivamente fruto da busca ativa.

Críticos ressaltam que a coleta primária de dados é realizada de forma descentralizada por assistentes sociais nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS e CREAS) nos municípios. Para esses especialistas, a permanência da curva ascendente revela a necessidade de maior efetividade nas metas do Plano Ruas Visíveis, sobretudo na criação de frentes de habitação social, reinserção no mercado de trabalho e ampliação da rede de saúde mental.

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