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Eleições

Investigação sobre 106 urnas exige comparar votos do primeiro e do segundo turno

Dados oficiais permitem comparar as 106 urnas, mas análise ainda não foi “concluída”.

Redação Pedra Azul News

28/10/2026 - 00:00:00 | Atualizada em 27/10/2026 - 20:49:31

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O levantamento divulgado nesta terça-feira (27), segundo o qual Flávio Bolsonaro (PL) não recebeu votos em 106 urnas eletrônicas no segundo turno presidencial, apresenta uma questão que ainda não foi respondida: essas mesmas seções eleitorais já haviam registrado votação zerada para o candidato no primeiro turno, realizado em 4 de outubro?

A resposta é fundamental para compreender o comportamento dos eleitores nas localidades identificadas. Se o padrão já existia, seria necessário investigar suas características históricas. Caso o candidato tenha recebido votos anteriormente e terminado sem nenhum no segundo turno, a mudança justificaria uma análise mais detalhada.

O levantamento foi realizado pela consultoria Paris Group e divulgado pela Folha de S.Paulo.

Segundo a publicação, as 106 seções registraram 14.860 votos para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e nenhum para Flávio Bolsonaro.

Entretanto, a reportagem original não disponibilizou a identificação completa das seções nem apresentou seus resultados anteriores.

O Pedra Azul News consultou a disponibilidade dos arquivos oficiais e procurou análises independentes que permitissem estabelecer essa comparação. Até o encerramento desta apuração, não foi possível concluir o cruzamento das 106 seções.

Por que o primeiro turno é tão importante para esclarecer os números?

A simples identificação de uma seção com votação zerada não permite determinar o motivo do resultado.

É necessário conhecer seu histórico.

Uma urna que tenha registrado zero voto para Flávio em ambos os turnos apresentaria continuidade de comportamento eleitoral, situação que poderia ser compatível com uma comunidade de preferência política muito concentrada.

Já uma seção que tenha registrado dezenas de votos para o senador no primeiro turno e nenhum no segundo apresentaria uma mudança mais expressiva.

Nesse segundo cenário, seria importante examinar o número de eleitores que compareceram, eventuais alterações de seção, a transferência de votos e os documentos da apuração.

Uma mudança significativa pode justificar investigação estatística, mas não constitui, isoladamente, demonstração de fraude.

Além disso, seções eleitorais podem sofrer alterações administrativas entre turnos. Por isso, uma comparação confiável precisa considerar município, zona, seção e eventuais mudanças de composição do eleitorado.

Onde estão localizadas as urnas com votação zerada?

O levantamento da Paris Group apontou a seguinte distribuição:

Norte: 65 seções.

Nordeste: 29 seções.

Centro-Oeste: seis seções.

Sudeste: três seções.

Sul: três seções.

No Amazonas, a ocorrência foi identificada em municípios como Tabatinga, Maués, Parintins, Benjamin Constant e São Gabriel da Cachoeira.

Em uma seção de Tabatinga, Lula registrou 354 votos, enquanto Flávio não recebeu nenhum.

Essas informações permitem identificar áreas prioritárias para a investigação, mas não substituem a relação completa das zonas e seções eleitorais.

O que os arquivos oficiais permitem verificar?

O Portal de Dados Abertos do TSE disponibiliza arquivos com a votação presidencial por seção eleitoral em 2026.

A base permite comparar informações dos dois turnos, incluindo os votos registrados para cada candidato.

Para realizar a verificação, seria necessário identificar as 106 seções com zero voto para Flávio no segundo turno e localizar os registros correspondentes no primeiro.

A análise deveria separar os resultados em três grupos: seções que já apresentavam votação zerada, seções que registraram votos anteriormente e seções cuja identificação exige verificação adicional por mudanças administrativas.

Também seria importante medir a diferença de comparecimento entre as duas datas.

Esses dados permitem uma investigação objetiva, sem depender exclusivamente de interpretações sobre a probabilidade dos resultados.

Auditoria independente oferece uma referência adicional

Durante a pesquisa, foi identificado um projeto de auditoria estatística desenvolvido por Ricardo Maia, com metodologia e código disponibilizados publicamente.

O trabalho, disponível no GitHub, informa que utilizou resultados oficiais das 499.205 seções do segundo turno.

Segundo a documentação do projeto, os pesquisadores também conferiram uma amostra de 50.821 boletins de urna e não encontraram divergências nos campos analisados.

Essa informação representa uma referência importante para o debate sobre a consistência dos dados publicados.

Entretanto, a conferência descrita no projeto não responde diretamente à pergunta sobre a votação das 106 urnas no primeiro turno.

Também não constitui, por si só, uma avaliação definitiva de todos os aspectos do processo eleitoral.

O trabalho demonstra que existem métodos reproduzíveis de análise capazes de contribuir para esclarecer questionamentos sobre a votação.

Até onde foi possível avançar no cruzamento?

A pesquisa identificou os arquivos oficiais necessários e confirmou a existência de análises independentes baseadas nesses dados.

No entanto, o arquivo nacional da votação presidencial por seção não pôde ser obtido integralmente para processamento nesta apuração.

Também não foi localizada uma relação pública completa das 106 seções utilizadas no levantamento da Paris Group.

Consequentemente, permanecem sem resposta três números fundamentais:

1. Quantas das 106 seções já tinham zero voto para Flávio no primeiro turno?

2. Quantas registraram votos para o senador em 4 de outubro, mas nenhum em 25 de outubro?

3. Qual foi a variação de comparecimento e de votos para Lula em cada uma dessas seções?

Divulgar respostas numéricas sem efetivamente executar essa comparação comprometeria a precisão da investigação.

O que seria necessário para concluir a apuração?

A reconstrução completa depende da identificação de todas as seções, da comparação dos arquivos oficiais dos dois turnos e de uma conferência amostral dos boletins de urna.

O resultado permitiria produzir uma tabela com estado, município, zona, seção, votos recebidos por cada candidato nas duas datas e variação do comparecimento.

A partir dessa tabela seria possível identificar quais resultados representam continuidade de uma preferência eleitoral local e quais apresentam mudanças que merecem exame adicional.

O procedimento também permitiria verificar se as 106 seções e os 14.860 votos informados no levantamento original são reproduzidos nos arquivos oficiais.

A investigação ainda não demonstrou que as 106 urnas apresentaram mudanças inexplicáveis entre os dois turnos. Tampouco estabeleceu que todas mantiveram o mesmo padrão.

Até aqui, a conclusão verificável é que o cruzamento é tecnicamente possível, mas ainda precisa ser executado e conferido.

A publicação desses resultados, acompanhada da metodologia e da identificação das seções, seria a forma mais consistente de esclarecer as dúvidas levantadas pelo levantamento da Paris Group.

Fontes: Folha de S.Paulo · TSE · Auditoria independente

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