A expansão das facções criminosas e o avanço do controle territorial exercido por grupos armados estão colocando a segurança pública no centro do debate eleitoral brasileiro. Em reportagem publicada em 15 de outubro, o jornal britânico Financial Times analisa como o medo e a insatisfação com a criminalidade influenciam disputas políticas na América Latina e podem ter impacto na eleição presidencial do Brasil em 2026.
Intitulada The gangs, the guns and the battle for Brazil (As gangues, as armas e a batalha pelo Brasil), a reportagem descreve como facções e milícias passaram a exercer influência sobre comunidades e territórios, especialmente no Rio de Janeiro. Segundo o jornal, a percepção de que as autoridades não conseguiram conter a expansão desses grupos contribui para fortalecer discursos políticos que prometem respostas mais duras contra o crime organizado.
A análise também destaca a estratégia eleitoral do senador e candidato Flávio Bolsonaro (PL), que aposta na preocupação da população com a violência como um dos temas centrais da disputa presidencial. O primeiro turno das eleições ocorreu em 11 de outubro, e o segundo turno está previsto para 25 de outubro.
Facções impõem regras em territórios brasileiros
A reportagem do Financial Times retrata situações em que integrantes de grupos criminosos controlam acessos a ruas, instalam barricadas e restringem a circulação de moradores. Esse tipo de domínio interfere na rotina das comunidades e evidencia as dificuldades do poder público para garantir segurança permanente em determinadas localidades.
O problema não se limita ao Rio de Janeiro. Facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) ampliaram sua atuação para diferentes regiões do país, disputando territórios e atividades ilegais.
Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado em novembro de 2025 identificou a presença ou influência de facções em 344 municípios da Amazônia Legal. O estudo registrou crescimento em relação aos 260 municípios identificados em 2024.
A expansão territorial representa um desafio para as autoridades porque as organizações criminosas podem manter redes de financiamento, recrutamento e distribuição de atividades ilegais mesmo quando integrantes são presos ou mortos em operações policiais.
Segurança pública ganha peso na disputa eleitoral
Segundo a análise do Financial Times, o medo e a insatisfação com o crime organizado ajudaram a impulsionar movimentos políticos de direita em diferentes países latino-americanos. No Brasil, Flávio Bolsonaro busca associar sua candidatura à defesa de medidas mais rigorosas contra as organizações criminosas.
A segurança pública, nesse cenário, ultrapassa o debate sobre policiamento e passa a influenciar a avaliação dos eleitores sobre a capacidade dos governos de garantir proteção e controlar territórios dominados por grupos armados.
Entretanto, a preocupação com a violência não significa que todos os eleitores apoiem as mesmas soluções. As propostas apresentadas pelos candidatos precisam ser avaliadas considerando seus mecanismos de execução, seus custos, os resultados esperados e os efeitos sobre a população.
Endurecimento penal é suficiente para conter as facções?
O debate sobre o enfrentamento ao crime organizado envolve operações policiais, penas, encarceramento e ampliação da capacidade de investigação. A questão central é saber quais medidas conseguem reduzir de forma duradoura o poder das organizações criminosas.
Operações de grande escala podem retirar integrantes das ruas, mas não garantem, isoladamente, o fim do controle territorial. Quando as estruturas financeiras e as redes de comando permanecem ativas, os grupos podem recrutar novos integrantes e recompor suas atividades.
Por isso, especialistas em segurança pública defendem que o enfrentamento também considere inteligência policial, investigação financeira, cooperação entre estados e responsabilização dos integrantes das organizações.
O desafio inclui recuperar a presença permanente do Estado nas comunidades, assegurar serviços públicos e permitir que moradores circulem e denunciem crimes sem sofrer ameaças.
Crime organizado também preocupa as instituições eleitorais
A influência de grupos criminosos pode alcançar a política por diferentes caminhos, incluindo intimidação de moradores, pressão sobre candidatos e suspeitas de vínculos entre organizações criminosas e agentes públicos.
Em setembro de 2026, a Reuters noticiou medidas adotadas no Brasil para tentar impedir a participação de candidatos suspeitos de ligação com o crime organizado nas eleições. O tema envolve o equilíbrio entre a proteção do processo democrático, a apuração de evidências e o respeito ao devido processo legal.
A relação entre criminalidade e eleições, portanto, não se resume à escolha de propostas mais rigorosas de segurança pública. Também envolve a capacidade de proteger a liberdade de escolha dos eleitores e impedir que grupos armados interfiram na representação política.
A análise do Financial Times destaca como o medo da violência se tornou um fator relevante na disputa presidencial brasileira. O desafio para os candidatos e para as instituições é apresentar respostas verificáveis ao avanço das facções, com resultados duradouros e respeito às garantias democráticas.
Fontes: Financial Times · BBC Brasil · Fórum Brasileiro de Segurança Pública · Reuters





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